
Ainda durante a sua promoção, Brüno foi destacado, segundo o MTV Movie Blog, como uma proeza capaz de fazer de Borat um filme para meninos. E assim, se confirmou: comparativamente ao seu antecessor, o novo projecto do versátil Sacha Baron Cohen consegue desenhar novos contornos para aquilo que aprendemos a conhecer como escandalizante. Em contrapartida, apesar de mais vísivel, não é só nessa característica que a longa-metragem se esgota - daí as inúmeras reacções precipitadas e redutoras em relação ao mesmo.
«Vassup?!», antecedida por um genérico de sonoridades rave, é a saudação buliçosa com que o reportér fashionista gay Brüno Gehard (pronunciado "gay-hard") se apresenta aos seus seguidores, e logo aí há uma preparação do terreno desconfortável com que o filme se baseia. Depois de uma introdução breve e esclarecedora do seu estilo de vida ainda no seu país natal, Áustria, as peripécias vividas por Brüno na América profunda - assaz semelhante ao argumento de Borat, com grande pena - são incontáveis e, o melhor, sem carimbar a fita com um único momento morto. Como reforço, fez-se recurso, sem roçar os lugares-comuns da comédia pueril americana, à provocação e à cultura do choque que tão bem caracterizam o género de humor que Baron Cohen faz questão de preconizar como estratégia principal.
Contudo, ignorado está o seu pendor mais que crítico, que para além do óbvio ataque à homofobia generalizada dos intervenientes e todos os recursos absurdos que praticam para que a mesma seja perpetuada (ilustre-se o hilariante episódio da terapia de conversão de sexualidade ou o da luta de jaula como clímax), existe também a sátira à obsessão do estatuto da celebridade, a negociação inócua e palitaiva de um cessar do conflito israelo-palestiniano, bem como a ridicularização dos costumes e mentalidades daquela que se proclama como a sociedade mais influente do Ocidente. Ainda se conspira se alguns momentos foram ou não premeditados, mas o que importa reter foi o efeito über realista que Larry Charles e a sua equipa trouxeram para ecrã, com sequências que revelaram a genuinidade das posições que cada interveniente demonstrava.
Mais que Brüno e a sua versão hiperbolizada da caricatura de homem gay, é nos entrevistados que reside a impossibilidade de disfarçar, sequer, um gargalhada - caso contrário, é manifestação de problema de siso. Ainda mais relevante é a noção de que o filme, para além da evidente pretensão em não querer veicular, não reforça, só por si, qualquer espécie de negativismo acerca daquilo que se estereotipou, ao longo dos tempos, como gay. E só mesmo um cabecinha perversa - de qualquer meio crítico, incluindo próprio público - é que dá tamanha conotação a um mockumentary. Quanto a mim, Brüno já logrou o seu maior objectivo: ser o austríaco mais famoso desde Hitler.

Totalmente de acordo.
ResponderEliminar"Mockumentary" é a expressão certa para caracterizar o filme, e eu nem sabia que essa expressão existia.