quarta-feira, 22 de julho de 2009

Hoje há crítica

Uma história contada por Lisboa

Foi essencialmente a presença marcada por Nuno Lopes que serviu de motivo mais que plausível para ver Alice - para além dos rasgados elogios feitos ao filme aquando o seu lançamento em 2005, quis explorar a sua relação com o universo cinematográfico e aquilo que ele pudesse vir a retirar dele enquanto actor. No entanto, outros aspectos ficaram merecidamente na memória.

Ainda que, a um nível pessoal, acabou por ser um filme nada estimulante, a estreia de Marco Martins revela, laconicamente, ser um exercício sublime. Falo, primeiramente, da história envolvida num desaprecimento da filha do protagonista e de como isso conduz à sua rotina obsessiva de fazer exactamente o mesmo caminho no dia do sumiço. Ao mesmo tempo, teima em não ceder à tentação de uma passividade ao colocar estrategicamente câmaras em pontos de maior tráfego de cidadãos de Lisboa para uma posterior visualização, assim como entregar panfletos exausativamente. Todas estas acções são feitas de forma a não sucumbir ao desespero e, por isso, com o objectivo latente de cimentar alguma esperança.

Dado adquirido ou não, o facto é que não me canso de dizer que Nuno Lopes é um actor completo. E quando digo completo refiro-me à sua versatilidade e entrega como caracteristicas a ter em consideração e, evidentemente, a louvar. Aqui, ao desempenhar um Mário pesado, silencioso, surgiu sob o modo de surpresa, pois não retratou alguém sofredor e angustiado a quem lhe aconteceu o pior pesadelo de qualquer pai, o que lhe mereceu a injustiça de uma apreciação de subaproveitado. Todavia, é na construção dessa personagem, cuja carga emotiva é contida, que o trabalho de Lopes deve ser avaliado, por mais que não seja pela portentosa transfiguração de um Mário/pai para um Mário/actor que vem manifestar-se como o momento de respiração e alívio da rotina da procura incessante de Alice. Entretanto, peço desculpa ao restante elenco.

Todos os elementos critativos e técnicos merecem ser ressaltados, mas o que se impõe magistralmente sem licença alguma é o tema fotográfico que tranforma uma Lisboa iluminada, branca numa Lisboa lúgrubre, onde uma gradação de cinzentos cruzam com pinceladas de azul veludado - quiçá servindo-se da iconografia do casaco azul de Alice como mote, por vezes tão reminiscente da imagem da "Menina do Casaco Vermelho" d' A Lista de Schindler. Se não fosse este aspecto, talvez a longa-metragem passava para a prateleira dos esquecíveis.

Tematicamente, Alice é assaz rico: o voyeurismo que desencadeia o anonimato social; o fenómeno do desaparecimento de crianças que origina comportamentos de obsessão e de solidão. A juntar-lhes estão os contornos, formais e estéticos, de frescura cinematográfica que Marco Martins introduz. São sinais do tempo e que vêm provar que nem só na mestria de Manoel de Oliveira o cinema português encontra a sua salvação.

1 comentário:

  1. Gosto desses filmes cinzentos e tristes. E de personagens obsessivas e macambúzias.
    Da próxima vez que passar pela biblioteca da Amadora, faço o meu registo e alugo essa Alice.

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