sexta-feira, 24 de julho de 2009

Hoje há reflexão

A necessidade de rotular ou a vida para além de quatro paredes
Apesar de todos os seus maneirismos bracejantes e postura efusiva pouco abonatórias à sua reputação, Júlia Pinheiro é, acima de todos os defeitos, uma personalidade por quem eu nutro algum estima. Principalmente pela óbvia razão tendenciosa do seu activismo pelos direitos da comunidade LGBTQ, o que já lhe valeu um bom punhado de prémios Arco-Íris, mas também pela sua honestidade, autenticidade e despretensão enquanto figura pública.
A introdução feita surge em virtude da emissão de hoje do seu programa, As Tardes da Júlia, no qual Solange F. foi convidada, conhecida recentemente mais pela sua opção de assumir a sua orientação sexual publicamente do que pelo facto de ser uma desinibida apresentadora de TV. Acompanhada, julgo que, por comentadores habituais de uma rubirca cor-de-rosa do programa, Ramos & Ramos e Duarte Siopa, começou por descrever o processo da sua decisão sem pôr de lado todas as vicissitudes que tal lhe trouxe à sua vida profissional, designadamente, a escassa oferta de trabalho em comparação àquilo que lhe era antes proposto. Sem ter que esperar muito, tamanha queixa desencadeou, de forma caótica, tópicos relacionados com o coming out, seja de famosos ou não. Sendo assim, senti uma necessidade em tecer algo sobre o assunto.

Comecemos pela atitude de Solange F. que colocou muitas questões no ar: será que não está ela a actuar sob o pretexto de uma necessidade de afirmação, em boa tradução, "aparecer"? Ou será que se trata de mais um mecanismo de vitimização pública? Ou se, efectivamente, faz todo o sentido dar a voz e a cara pela discriminação latente no meio do entretenimento o que faz disso uma luta contra essa mesma discriminação? O meu parecer, partindo do facto de Solange ser a primeira (e das poucas!) figura pública portuguesa, que conheça, convicta e assumidamente lésbica, isto é, que não tem medo algum em usar tamanho palavrão para caracterizar quem é e, que por isso, não imite muitos outros na árdua arte de andar à boleia de insinuações e/ou suspeitas, vai ao encontro da terceira hipótese. Sem margem para dúvida!

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Agora, abordagem igualmente interessante foi a de Duarte Siopa que, na sua indubitável insegurança pessoal, vomitou nada mais, nada menos algo como isto: "Mas tu tens necessidade de dizer ao Mundo que és lésbica? Quer dizer, eu tenho amigos homossexuais que não precisam de dizer nada a ninguém do que fazem na cama! Mas agora precisamos de algum rótulo na cabeça a dizer que somos gay ou hetero ou seja lá o que for?". Abreviando a resposta no que toca à primeira pergunta por razões mais que óbvias, a apresentadora ripostou prontamente com um conteúdo do género: "Concordo. O que alguém faz com uma, duas, três, quatro, cinco pessoas na cama só diz respeito a essa pessoa. Agora, a minha vida não se resume a quatro paredes". Melhor resposta não daria.

Primeiro que tudo: se um homossexual (não generalizemos - dentro dos limites de equilibrio emocional e racional, entre outros factores) se afirma perante a sociedade, para além de não ser por necessidade, fá-lo-á na qualidade de cidadão e num contexto para lá da intimidade! Porque os gays não passam a ser hetereossexuais só porque sairam de suas casas.

Infelizmente, só consigo concluir o seguinte da tirada redutora de Siopa: com que então os homossexuais devem ter consciência do que são mas vivê-lo à "xuxa calada", é isso? Vamos lá repetir a História do Mundo mais uma vez. Meu caro Duarte Siopa, é por causa de armariados como o senhor que os adolescentes (destaco-os por serem um público geralmente mais influencíável) deste país ou suicidam-se, ou vivem uma dupla vida ou acabam por se auto-destruir tal é a homofobia internalizada. Essa então então que é bem pior por derivar de um conflito interior e não de medos e intolerância para com a diversidade.

1 comentário:

  1. 1º: LGBTQ? O Q é de quê?
    2º: Prémios Arco-Íris? Nem sabia da sua existência, quanto mais que a sô dona Júlia já tinha um punhado deles...
    3º: Não me parece que a situação de desempregada de Solange F. se deva a ter-se assumido. Afinal de contas, logo depois de ter saido a capa de revista com o título "Sou lésbica" ela foi fazer uns comentariozitos na Tertúlia Cor-de-Rosa.
    4º: Parece-me que o sô doutor Duarte Siopa anda à procura de pretextos para continuar arrumadinho no armário.

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