sábado, 29 de agosto de 2009

Hoje há crítica

A glória do sacana do Tarantino

Quem é que, depois de uma onda avassaladora de promoção - onde uma pluralidade de versões de cartazes se destaca - e de incontáveis boas impressões a despeito, se digna a não ficar expectante relativamente a um filme? Foi o que aconteceu comigo e o novo Inglorious Basterds (Sacanas sem Lei). Para cúmulo da ansiedade, surgiu como contributo a conotação de um exercício cinematográfico inspirado num spaghetti western subjugado à iconografia da 2.ª Guerra Mundial... dirigido por Quentin Tarantino! Saliente-se que a curta, mas indubitavelmente já icónica, filmografia do realizador americano não é obstante ao seu lugar reservado de um dos mais prestigiados e este seu sexto projecto veio confirmar o seu estatuto de obra-prima.

Inglorious Basterds vive de um trabalho de narrativa e da tensão soberba de que dele origina. Fazem parte dela, diálogos carimbados pelo humor corrosivo (e muitas das vezes macabro) que colidem coerentemente com uma misce-en-scène certeira - a sequência em que o clássico "Cat People (Putting Out Fire)" do senhor Bowie serve de banda-sonora aos preparativos do plano vingativo de queimar bobinas de fita de nitrato camuflado numa estreia de um filme da Propaganda Nazi assenta que nem uma luva - e assim nasce um leque de cenas à espera do seu epíteto de "clássicas" num futuro próximo. Tudo isto consumado, parto de um atrevimento ressaltar a linearidade do guião com tanta tendência climática despida, pouco habitual no estilo de Tarantino, mas nem por sombras menor.

A fechar em beleza, cabem uns quantos elogios a um elenco esmerado: Daniel Brühl procurou uma ambivalência de um apaixonado obsessivo ao passo que Mélanie Laurent revela a verdadeira crueza de uma vingança sem precedentes. Todavia, e ainda que Brad Pitt continue no comando do protagonismo, Christoph Waltz rouba toda a glória possível e imaginável com o seu desempenho rigoroso de uma personagem intrinsecamente fascinante e, por isso, algo desafiante na sua interpretação - o Oficial das SS, Coronel Hans Landa, ou como os sacanas se orgulham de o apelidar, o "Caçador de Judeus".
Conforme introduzido e apreciado na derradeira fala de Aldo Raine: "I think this might be my masterpiece" quando este deixa a sua marca eternizante na testa de mais um nazi, este Inglorious Basterds consegue, de facto e aos meus humildes olhos de leigo, alcançar essa proeza - a de obra-prima. Um marco que não revolucionará o curso do cinema contemporâneo como fez Pulp Fiction em 1994 mas que fomenta muito aspirante a realizador e cimenta Tarantino no seu pedestal, por mais divididos que tanto público, crítica e envolventes directos do cinema se achem.

1 comentário:

  1. Não sou um entendido em cinema nem nada que se pareça, mas devo dizer que este foi "um gand'a filme"! Digno da meretória, no entanto simplória, adjectivação de "o melhor filme que vi este ano".
    E depois de ter revisto o Pulp Fiction, sem dúvida que vou começar a seguir mais de perto a carreira do Tarantino.

    À parte disso, parabéns por um blogue cada vez mais completo.

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