quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Hoje há crítica

É racional ser-se supersticioso

Há filmes que nos escravizam a mente de modo inquietante. No caso particular de Coisa Ruim, graças ao seu tratamento cuidado dos momentos de uma família comum num ambiente que lhes é estranho, tal fenómeno é alcançado através de uma injecção insolente de circunspeção quando já tinhamos como garantido tudo aquilo que de metafísico nos rodeia. A sua dupla de realização, Tiago Guedes e Frederico Serra, decide produzir o efeito dramático do argumento de José Rodrigues dos Santos (sim, o pivô de telejornal) apoiando-se num método de suspense do maior primor.

Aliada ao suspense, um dos grandes intersses da fita prende-se com a sua componente temática que, se me permitem, vou dissecá-la nas seguintes vertentes: primeiro há a acusação veemente de que a religião - organizada ou não - anda de mãos dadas com a superstição, deixando-a filtrar-se na sua esfera mais beata. Deste modo, à Igreja é conferida uma credibilização vagueante pelas ruas da amargura; Depois, existe o palco no qual tamanhos enredos são assistidos, desta feita, no interior mais inóspito e profundo de Portugal, onde a modernidade é sacodida sem remorsos e o folclore é abraçado como resposta a tudo; Por fim, em contrapartida, em virtude de eventos que aparentam esconder qualquer explicação, a barreira que dissociava a lógica e o intelecto da crendice ou do paranormal vai dando de si, chegando até a chamar a atenção para àquilo que as chamadas ciências exactas parecem não encontrar razão.

A todo este desmontar de acção riquissimo - no qual nem a influência a O Exorcista, assente no paralelismo do padre velho e obtuso e o padre novo e receptivo, foi dispensada -, coube não só a um elenco igualmente rico dar o corpo ao manifesto (desde um inflexível Xavier de António Luz até uma hesitante Helena de Manuela Couto - sem jamais olvidar o trabalho premiado de José Afonso Pimentel, claro está!) como também o recurso à naturalidade e espontaneidade técnica na arte de assutar, primando maquilhagem e guarda-roupa realistas à facilidade dos artificios sonoros e do gore desnecessário. Classe.

1 comentário:

  1. O primeiro filme de terror português é algo para festejar. Ainda por cima aborda os medos e superstições típicos dos meios pequenos. Suficiente para uma noite de pesadelos.

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