A minha relação com o Cinema Francês já contou com piores dias. Aliás, ouso afirmar que, em jeito mais que irónico, tem vindo a ficar cada vez mais sólida depois do inspirador Les Chansons d'Amour, de Christophe Honoré. Mais: a sua alegada índole pretensiosa não era mais do que um preconceito cego que, como tal, não deixava evidenciar a sua essência de um cinema capaz de retratar a genuinidade das relações humanas. Com Soit Je Meurs, Soit Je Vais Mieux (traduzido para Ou Morrro, ou Fico Melhor) e os seus contornos minimalistas, o meu encantamento ressurgiu e selou a confirmação de um flanco cinematográfico injustamente desprezado.
Conduzido pela experiente Laurence Ferreira Barbosa, a fita orienta, num modo livre, a sua história de um adolescente, Martial, veiculada pela dificuldade de integração na sua turma abertamente hostil e pelas suas descobertas e experiências ao lado da idiossincrasia de duas gémeas. É exposta a crueza dessa transição de mancebo imaculado para homem consciente nos momentos que Martial decide entregar-se a um papel submisso às rédeas das irmãs nas aventuras em que os três invadem propriedades alheias onde a mãe das raparigas apenas presta serviços como mulher a dias. Experiências excitantes que sucedem vertiginosamente umas às outras na cabeça de um miúdo que ainda está a trilhar os primeiros passos para um auto-discernimento.
O estilo de Barbosa em fundir acidentalmente vários géneros, como a comédia negra e o realismo puro, é gratificante e notório em alguma sequências. A título de exemplo, tem-se o detalhe percorrido da individualidade das casas e dos seus objectos, bem como a relação desconcertante entre Martial e Sabine, sua mãe. Interessante nota vai para o acesso de descontrolo da parte de Martial para com a sua mãe depois desta ter provocado um embaraço na tentativa de causar uma impressão idealista do filho a um colega de escola, surgindo, assim, como solução desesperada para a impopularidade do filho em ambiente escolar.
Dentro do lote de filmes sobre coming of age que vi até à data - e já vi uma porção considerável deles - Soit Je Meurs, Soit Je Vais Mieux apresenta razões que me obrigam a incluí-lo algures entre as posições cimeiras de uma lista dos mais inteligentes do género. Se não for por isso, por mais que não seja pela prestação entusiasmante de François Civil e o seu (des)penteado magnético.

Quando for para ver filmes como este, podes convidar-me mais vezes.
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