Quando, em 2005, os Arctic Monkeys deram-se a conhecer ao mundo, um novo entusiasmo despoletou no coração do rock independente. Traziam na sua fórmula mágica trunfos como canções despretensiosas que obrigaram os críticos a rotulá-las de "rock dançável", muito na linha de seguimento dos congéneres Franz Ferdinand. Mas os rapazes de Sheffield trascenderam essa etiqueta ao evidenciar uma viagem pela marca das suas posturas e conceito mais abrangível. Com Humbg, o terceiro álbum, o leme altera a sua rota subitamente, como se tivesse visto o Adamastor.
A imagem apregoada pelo quarteto indiciava uma mudança influenciada pelas sonoridades bucólicas de finais dos anos 60 até ao íncio da decáda posterior, com Jimi Hendrix, Cream e Black Sabbath a liderarem a responsabilidade. O primeiro single, "Crying Lightning", levantou aponta do véu e confirmou: eles mudaram. Mais se sente depois de umas certas horas de audição das 10 faixas que compõem o longa-duração, pois "Dangerous Animals" e "The Jeweller's Hands" são atrozes para quem ainda tinha uma réstia de negação. Na sua grande maioria, são temas sisudos e cerrados, mas, ainda assim, indiscutivelmente acessíveis. Por exemplo, "My Propeller" dá-me razão depois de uma digestão de quatro ou cinco repetições.
Com o carimbo da habitual Domino Records, o álbum, numa perspectiva temática, persiste o lado cronista do colectivo, com grandes injecções de situações comuns e diárias adornadas com um delicioso sotaque. Bendito Alex Truner! O que é, contraditoriamente, novidade é fusão de uns versos algo inócuos de Arctic Monkeys com a visão amadurecida de Last Shadow Puppets, ou lado paralelo do vocalista com o seu colega Miles Kane, dos recém separados The Rascals.
Pensou-se em disparate, mas o veredicto é puro e simples: "primeiro estranha-se e depois entranha-se". Os Arctic Monkeys de "Fake Tales of San Francisco" ou de "Teddy Picker" trocaram a sua pele e aqueles que entravam na birra de "quero mais do mesmo" saíram insatisfeitos. Quanto a mim, não me coloco nesse saco e tenho ainda a insolência de tecer uma analogia com o rumo que os Beatles levaram depois de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, quando anteriormente eram conhecidos como os miúdos de Liverpool que punham as raparigas em histeria com as suas músicas de amor. Em 2009, um novo interesse crítico vai ser suscitado no coração do rock independente e, finalmente, afirmar-se-á sem complexos que a banda tem e sabe gerir uma carreira.

Bucólico, não pode aprender nada...
ResponderEliminarSem dúvida que mudaram de rumo. Eu ainda estou na fase do "entranha-se", mas tenho a certeza que com mais algumas audições, vai ao sítio. Não estava à espera que se tornassem mais duros e sisudos. Passaram da adolescência para a fase adulta...