sexta-feira, 31 de julho de 2009

Hoje há...

...novo teledisco dos Arctic Monkeys

Tem como título "Crying Lightning" e acaba de ser extraído do novíssimo terceiro registo de originais do grupo de Sheffield, Humbug. Repare-se no toque filme de série B catapultado das décadas de 30 e 40 do cinema de terror americano.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Hoje há crítica

A brecha que dá pistas para o próximo capítulo

Se houve saga cinematográfica dos últimos tempos que se orgulhe de não ter dissipado gradualmente o seu feixe energético depois da primeira sequela, essa é, parece-me, a das adaptações de Harry Potter, de J.K. Rowling. Pelo contrário: a cada novo ano do jovem feiticeiro em Hogwarts a febre aumenta. Ajudando a sustentar tamanho marco encontra-se o mais recente Harry Potter and the Half-Blood Prince (por terras lusas conhecido como Harry Potter e o Príncipe Misterioso) e o seus números colossais de bilheteira, que, apesar de nunca desiludir dada a sua veia inerente evasiva do género de aventura, perdeu os três primeiros lugares do pódio para alguns dos seus antecessores.

Depois de ter conduzido a quinta parte, David Yates regressa à cadeira de realizador e toma conta de uma criação de um festim visual, muito por culpa das maravilhas do CGI. Entrando em paralelismo com contemporâneos seus - Transformers 2, por exemplo - os efeitos especiais fazem a diferença, acusando uma natureza brilhantemente sofisticada que procura harmonia com o imaginário da série. Por outro lado, optou, no alto da sua experiência, comprimir personagens e eventos de relevo o que trouxe quase nenhuma substância ao filme. apesar de se tratar de uma adaptação. Aliás, culpe-se originalmente Rowling pela arte de encher de chouriços preconizada neste Príncipe Misterioso, no qual nem os efectivos momentos diegéticos - algutinados numa tríade que compreende a missão de Malfoy, a explosão de uma puberdade assanhada caracteristica da adolescência e a cena climática ocorrida na Torre de Astronomia - conseguem acrescentar essência profícua ao crescendo emotivo despoletado n'A Ordem da Fénix. É que nem o tema central que dá nome ao título o revigora!

Num plano representativo, acaba por ser curioso recorrer à fluência da saga como reflexo do crescimento paralelo tanto das personagens de Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint e companhia, como o dos próprios. E devo destacar que Radcliffe ofereceu razões para um justo bom desempenho, já que parece ter amadurecido, em jeito irónico, um Harry corajoso e destemido, contudo precipitado e impulsivo, sendo aqui fiel ao ditado dos romances. Todavia, é na idiossincrasia de Jim Broadbent, na aspereza de Alan Rickman, na demência de Helena Bonham-Carter, na alienação de Evanna Lynch e no sentido de tacto e de humor refinados de Michael Gambon que os créditos de um hipnotismo perfeito devem recair.

No seu todo, a sexta longa-metragem de Harry Potter não é mau cinema. De modo algum! Apenas revela-se aquém daquilo que se deposita quando se trata de um dos filmes mais aguardados do ano e, sendo assim, passível de uma crítica avidamente severa até ao último pormenor. É em momentos como este que uma vontade de implorar "Volta, Cuarón!" emerge, com a esperança de especular uma reinvenção da proeza magnífica do realizador mexicano em Harry Potter and the Prisioner of Azkaban.

Hoje há imagem

Em memória de Frank Lloyd Wright por me ter aberto os meus olhos relativamente à minha vocacção na área minada de História da Cultura e das Artes. Entretanto, já sei que, do Organicismo, o funcionalismo não é característica...
Museu Solomon R. Guggenheim, Nova Iorque, de Francis Lloyd Wright

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Hoje há...

...Daniel Radcliffe na edição de Agosto da Attitude!

Mal recebi a newsletter, uma hibrida reacção ente um queixo caído e uns olhinhos reluzentes coube em mim.

Mas muito mais do que a febre circundante no célebre jovem enquanto Harry Potter, está a justificação assente na primeira entrevista (e capa!) numa revista totalmente dedicada ao público LGBTQ britânico pelo actor. É excelente e, simultaneamente, encorajador, ter consciência de que rostos tão influentes como Radcliffe partilham abertamente da sua relação com a comunidade homossexual e respectivas causas político-sociais.

Pessoalmente, admirei a parte em que o actor se refere à homofobia como uma abominação e o seu parecer em relação à mesma como nojenta, animal e estúpida, reforçando a ideia de que cresceu em torno de pessoas gays e que era a única criança na turma que não teve uma relação homossexual. Bravo, 50 pontos para Gryffindor!

Hoje há crítica

Lisboa, menina e moça... macaca!

Vêm da Amadora (concretamente da freguesia da Reboleira) e trazem na bagagem, recheada de mesas de misturas e drum machines, uma lufada de ar fresco no panorama há muito saturado do hip hop nacional, acusando ainda influências de grime britânico e de um dubstep jamaicano. Decidiram dar-se a conhcer pelo nome de Macacos do Chinês e vieram contribuir para um novíssimo entusiasmo na velha arte do barulho, com o seu primeiro longa-duração, Ruídos Reais.

Laconicamente, as doze faixas que compreendem o álbum justificam na plenitude a classificação introdutória, pois se, por um lado há proficiência do compasso das batidas tradicionalmente do género em causa, a isso há o encontro harmonioso com as melodias mais inesperadas - sejam elas conferidas por guitarras portuguesas ("Rolling na Reboleira") ou estimuladas por samples de conhecidos adágios populares ("Machadinha"). Com isto, tornar-se-ia injusto se um crédito apreciado à componente hiperactivamente dançável estivesse a ser ignorada - "Fala Bem", uma jeitosa colaboração com Kalaf, dos Buraka Som Sistema, é o expoente máximo.

Contudo, o conceito do colectivo apresenta-se renovador, mas não revolucionário (nada de censurável, atenção; também não vamos agora exigir em demasia), uma vez que o grande trunfo do hip hop continua a ser a palavra e aqui os quatro rapazes são acutilantes e irónicos, na sua estética, e engenhosos e deliberados, na sua forma. Prova clara disso, sem querer mais entrar em enfadonhos argumentos de lógica, é a valente tirada de «Há cada vez mais artistas e cada vez menos obras de arte» de "Inspiração". No que toca a "Pombos Gordos", permitam-me o epíteto de "o mais divertido fechar da cortina de um álbum de estreia" que alguma vez tive oportunidade de testemunhar.

Se em 2008, Black Diamond reconfirmou o lugar ao sol dos Buraka Som Sistema, este Ruídos Reais, com o carimbo da Enchufada, consolidam a brincadeira de crianças dos Macacos do Chinês, depois do seu primeiríssimo EP, de seu nome Plutão. Digam o que disserem relativamente à semelhança de timbre entre Skillaz e Pacman, estes meninos já conseguiram transcender o impacto que qualquer álbum dos Da Weasel possa vir a ter na minha humilde pessoa.

domingo, 26 de julho de 2009

Hoje há desabafo

Só quero quem eu nunca vi
Desprezo o ambiente em volta e todos aqueles que o criam ou fazem parte dele. São pessoas afáveis, generosas, indulgentes e calorosas, eu sei. Impecáveis. Daí um esforço e uma falsa vontade de integração imperar num reino que não é o meu.
Mas o interesse, o fascínio, o magnetismo não estão acesos. Nunca estiveram. Tenho para mim que tudo aquilo que era para descobrir no mundo deles, já descobri. É tudo tão redutor e tão elementar. Diria até que o evidente serve-lhes como principal fonte de inspiração de vida. Mas isto também posso ser eu a fazer juízos de valor injustamente precipitados.
Custa-me vestir as suas peles, sem que tal seja captado ou sequer duvidado; sinto-me obrigado a encobrir a minha essência de forma a não ferir as suas verdades e convicções inalteráveis, qual conversa que está a ter com o avô.
Será aquilo que nos separa muito mas do que aquilo que nos une a resposta (entre múltiplas outras) para tamanho conflito interior?
Não sei. Apenas sei que tenho que refrear a dose para bem exclusivo do meu egoísmo.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Hoje há reflexão

A necessidade de rotular ou a vida para além de quatro paredes
Apesar de todos os seus maneirismos bracejantes e postura efusiva pouco abonatórias à sua reputação, Júlia Pinheiro é, acima de todos os defeitos, uma personalidade por quem eu nutro algum estima. Principalmente pela óbvia razão tendenciosa do seu activismo pelos direitos da comunidade LGBTQ, o que já lhe valeu um bom punhado de prémios Arco-Íris, mas também pela sua honestidade, autenticidade e despretensão enquanto figura pública.
A introdução feita surge em virtude da emissão de hoje do seu programa, As Tardes da Júlia, no qual Solange F. foi convidada, conhecida recentemente mais pela sua opção de assumir a sua orientação sexual publicamente do que pelo facto de ser uma desinibida apresentadora de TV. Acompanhada, julgo que, por comentadores habituais de uma rubirca cor-de-rosa do programa, Ramos & Ramos e Duarte Siopa, começou por descrever o processo da sua decisão sem pôr de lado todas as vicissitudes que tal lhe trouxe à sua vida profissional, designadamente, a escassa oferta de trabalho em comparação àquilo que lhe era antes proposto. Sem ter que esperar muito, tamanha queixa desencadeou, de forma caótica, tópicos relacionados com o coming out, seja de famosos ou não. Sendo assim, senti uma necessidade em tecer algo sobre o assunto.

Comecemos pela atitude de Solange F. que colocou muitas questões no ar: será que não está ela a actuar sob o pretexto de uma necessidade de afirmação, em boa tradução, "aparecer"? Ou será que se trata de mais um mecanismo de vitimização pública? Ou se, efectivamente, faz todo o sentido dar a voz e a cara pela discriminação latente no meio do entretenimento o que faz disso uma luta contra essa mesma discriminação? O meu parecer, partindo do facto de Solange ser a primeira (e das poucas!) figura pública portuguesa, que conheça, convicta e assumidamente lésbica, isto é, que não tem medo algum em usar tamanho palavrão para caracterizar quem é e, que por isso, não imite muitos outros na árdua arte de andar à boleia de insinuações e/ou suspeitas, vai ao encontro da terceira hipótese. Sem margem para dúvida!

*

Agora, abordagem igualmente interessante foi a de Duarte Siopa que, na sua indubitável insegurança pessoal, vomitou nada mais, nada menos algo como isto: "Mas tu tens necessidade de dizer ao Mundo que és lésbica? Quer dizer, eu tenho amigos homossexuais que não precisam de dizer nada a ninguém do que fazem na cama! Mas agora precisamos de algum rótulo na cabeça a dizer que somos gay ou hetero ou seja lá o que for?". Abreviando a resposta no que toca à primeira pergunta por razões mais que óbvias, a apresentadora ripostou prontamente com um conteúdo do género: "Concordo. O que alguém faz com uma, duas, três, quatro, cinco pessoas na cama só diz respeito a essa pessoa. Agora, a minha vida não se resume a quatro paredes". Melhor resposta não daria.

Primeiro que tudo: se um homossexual (não generalizemos - dentro dos limites de equilibrio emocional e racional, entre outros factores) se afirma perante a sociedade, para além de não ser por necessidade, fá-lo-á na qualidade de cidadão e num contexto para lá da intimidade! Porque os gays não passam a ser hetereossexuais só porque sairam de suas casas.

Infelizmente, só consigo concluir o seguinte da tirada redutora de Siopa: com que então os homossexuais devem ter consciência do que são mas vivê-lo à "xuxa calada", é isso? Vamos lá repetir a História do Mundo mais uma vez. Meu caro Duarte Siopa, é por causa de armariados como o senhor que os adolescentes (destaco-os por serem um público geralmente mais influencíável) deste país ou suicidam-se, ou vivem uma dupla vida ou acabam por se auto-destruir tal é a homofobia internalizada. Essa então então que é bem pior por derivar de um conflito interior e não de medos e intolerância para com a diversidade.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Hoje há imagem

Tomara que 5 de Março de 2010 se concretize o mais breve possível!
E, a julgar pelos posters promocionais, vem aí versão oscilante entre um Família Addams e um Crónicas de Nárnia. Nada a apontar, atenção!

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Hoje há crítica

Uma história contada por Lisboa

Foi essencialmente a presença marcada por Nuno Lopes que serviu de motivo mais que plausível para ver Alice - para além dos rasgados elogios feitos ao filme aquando o seu lançamento em 2005, quis explorar a sua relação com o universo cinematográfico e aquilo que ele pudesse vir a retirar dele enquanto actor. No entanto, outros aspectos ficaram merecidamente na memória.

Ainda que, a um nível pessoal, acabou por ser um filme nada estimulante, a estreia de Marco Martins revela, laconicamente, ser um exercício sublime. Falo, primeiramente, da história envolvida num desaprecimento da filha do protagonista e de como isso conduz à sua rotina obsessiva de fazer exactamente o mesmo caminho no dia do sumiço. Ao mesmo tempo, teima em não ceder à tentação de uma passividade ao colocar estrategicamente câmaras em pontos de maior tráfego de cidadãos de Lisboa para uma posterior visualização, assim como entregar panfletos exausativamente. Todas estas acções são feitas de forma a não sucumbir ao desespero e, por isso, com o objectivo latente de cimentar alguma esperança.

Dado adquirido ou não, o facto é que não me canso de dizer que Nuno Lopes é um actor completo. E quando digo completo refiro-me à sua versatilidade e entrega como caracteristicas a ter em consideração e, evidentemente, a louvar. Aqui, ao desempenhar um Mário pesado, silencioso, surgiu sob o modo de surpresa, pois não retratou alguém sofredor e angustiado a quem lhe aconteceu o pior pesadelo de qualquer pai, o que lhe mereceu a injustiça de uma apreciação de subaproveitado. Todavia, é na construção dessa personagem, cuja carga emotiva é contida, que o trabalho de Lopes deve ser avaliado, por mais que não seja pela portentosa transfiguração de um Mário/pai para um Mário/actor que vem manifestar-se como o momento de respiração e alívio da rotina da procura incessante de Alice. Entretanto, peço desculpa ao restante elenco.

Todos os elementos critativos e técnicos merecem ser ressaltados, mas o que se impõe magistralmente sem licença alguma é o tema fotográfico que tranforma uma Lisboa iluminada, branca numa Lisboa lúgrubre, onde uma gradação de cinzentos cruzam com pinceladas de azul veludado - quiçá servindo-se da iconografia do casaco azul de Alice como mote, por vezes tão reminiscente da imagem da "Menina do Casaco Vermelho" d' A Lista de Schindler. Se não fosse este aspecto, talvez a longa-metragem passava para a prateleira dos esquecíveis.

Tematicamente, Alice é assaz rico: o voyeurismo que desencadeia o anonimato social; o fenómeno do desaparecimento de crianças que origina comportamentos de obsessão e de solidão. A juntar-lhes estão os contornos, formais e estéticos, de frescura cinematográfica que Marco Martins introduz. São sinais do tempo e que vêm provar que nem só na mestria de Manoel de Oliveira o cinema português encontra a sua salvação.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Hoje há desabafo

Uma razão para levantar da cama
Hibernei. Há quase um ano que deambulo embriagado entre incertezas e novas descobertas, ao mesmo tempo que entro em desvantagem linear do resto do mundo. Não o fiz por livre arbítrio; fui lá parar em função da minha escolha pelo caminho mais fácil da instabilidade escolar.
Epicuro e Pirro de Élis dizem trata-se de uma ataraxia. É certo que desisti de muitos dos meus hábitos, rotinas e preocupações. Ironicamente, não me encontrei confuso, apático ou indiferente. Somente questionava: será a dependência de um estilo de vida rotineiro e imutável a única forma de sobreviver?
Prefiro responder que não, senão tornávamos escravos da nossa própria vida. Prefiro afirmar que apenas ter um motivo, pelo menos, para acordarmos todas as manhãs faria mais sentido. E assim defendo com a tentativa de promessa de não cair em tentação outra vez.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Hoje há efeméride

40.º aniversário do sucesso da Apollo 11

Aquilo que Neil Armstrong defende ter sido «um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade», as camadas mais populares estão convictas que «foi com esta porcaria, de mexer no espaço, que lixaram o planeta, como as mudanças de tempo ou como é lá isso». Lançada a 16 de Julho de 1969, a Apollo 11 aterrou na Lua quatro dias depois ainda que tal constitua a maior mentira do século passado para 20% da população americana.

Eu acrescento que apenas foi o «toma lá, ganhámos!» dos E.U.A. depois do Sputnik e da Laika da U.R.S.S. e, com efeito, a corrida mudou o seu rumo para o nuclear. Quem dá mais?

Hoje há reflexão

O beco sem saída de Domingo à noite
Enquanto consumidor de alguma grelha televisiva portuguesa, tenho uma pergunta a colocar: por onde se dirige uma pessoa que pretenda um bom programa de entretenimento num serão de Domingo?
Se não gostar de o cariz cultural que muitos roçam ou não ser adepto da programação da RTP2, a resposta torna-se difícil, se não vejamos:
  • Na RTP1, tem-se a versão nocturna das originais romarias apimbalhadas que percorrem o país de norte a sul que ocupam sem fôlego as manhãs e tardes da semana útil, no Hoje Há Festa. Estreando-se em Peniche, José Carlos Malato (de quem eu ainda guardo alguma empatia) e Fernando Mendes (de quem eu não percebo como provoca tanta empatia) conduziram um dos piores momentos do populismo transmitido pela estação estatal;
  • Na SIC, encontra-se o exemplo da mais recente vaga de revivalismo dos Jogos sem Fronteiras que a estação de Pinto Balsemão teima em apostar. O TGV é triste, é penoso e é repetitivo. Para piorar a situação, a pernas tortas da Patrocínio roubam todo o protagonismo do injustiçado e subaproveitado João Manzarra, reduzindo este a palhaço de serviço;
  • Na TVI, por fim, não há outra alternativa senão aturar outro revivalismo, desta feita do Chuva de Estrelas. Curiosamente, o mal não mora aí, mas antes na já irritante teimosia de José Eduardo Moniz em enveredar pelo formulaico espectáculo do miserabilismo que o mais acríticos aplaudem enquanto se dá falsas esperanças a aspirantes que julgam que vão ser não eles próprios mas o seu ídolo (?). Quanto a Herman José: escolhas fazem parte da legitimidade de cada um, mas nós perdoamos-te à luz do teu legado no tesouro da comédia portuguesa.

Depois deste quadro negro, tenho uma uma boa notícia: Os Contemporâneos começam logo às 22h e picos...

domingo, 19 de julho de 2009

Hoje há crítica

A "pomba da paz" mal interpretada

Ainda durante a sua promoção, Brüno foi destacado, segundo o MTV Movie Blog, como uma proeza capaz de fazer de Borat um filme para meninos. E assim, se confirmou: comparativamente ao seu antecessor, o novo projecto do versátil Sacha Baron Cohen consegue desenhar novos contornos para aquilo que aprendemos a conhecer como escandalizante. Em contrapartida, apesar de mais vísivel, não é só nessa característica que a longa-metragem se esgota - daí as inúmeras reacções precipitadas e redutoras em relação ao mesmo.

«Vassup?!», antecedida por um genérico de sonoridades rave, é a saudação buliçosa com que o reportér fashionista gay Brüno Gehard (pronunciado "gay-hard") se apresenta aos seus seguidores, e logo aí há uma preparação do terreno desconfortável com que o filme se baseia. Depois de uma introdução breve e esclarecedora do seu estilo de vida ainda no seu país natal, Áustria, as peripécias vividas por Brüno na América profunda - assaz semelhante ao argumento de Borat, com grande pena - são incontáveis e, o melhor, sem carimbar a fita com um único momento morto. Como reforço, fez-se recurso, sem roçar os lugares-comuns da comédia pueril americana, à provocação e à cultura do choque que tão bem caracterizam o género de humor que Baron Cohen faz questão de preconizar como estratégia principal.

Contudo, ignorado está o seu pendor mais que crítico, que para além do óbvio ataque à homofobia generalizada dos intervenientes e todos os recursos absurdos que praticam para que a mesma seja perpetuada (ilustre-se o hilariante episódio da terapia de conversão de sexualidade ou o da luta de jaula como clímax), existe também a sátira à obsessão do estatuto da celebridade, a negociação inócua e palitaiva de um cessar do conflito israelo-palestiniano, bem como a ridicularização dos costumes e mentalidades daquela que se proclama como a sociedade mais influente do Ocidente. Ainda se conspira se alguns momentos foram ou não premeditados, mas o que importa reter foi o efeito über realista que Larry Charles e a sua equipa trouxeram para ecrã, com sequências que revelaram a genuinidade das posições que cada interveniente demonstrava.

Mais que Brüno e a sua versão hiperbolizada da caricatura de homem gay, é nos entrevistados que reside a impossibilidade de disfarçar, sequer, um gargalhada - caso contrário, é manifestação de problema de siso. Ainda mais relevante é a noção de que o filme, para além da evidente pretensão em não querer veicular, não reforça, só por si, qualquer espécie de negativismo acerca daquilo que se estereotipou, ao longo dos tempos, como gay. E só mesmo um cabecinha perversa - de qualquer meio crítico, incluindo próprio público - é que dá tamanha conotação a um mockumentary. Quanto a mim, Brüno já logrou o seu maior objectivo: ser o austríaco mais famoso desde Hitler.

sábado, 18 de julho de 2009

Hoje há...

...The Killers e eu não vou!
Pois é, após várias tentativas em participações de passatempos terem saído goradas (sim, porque encontro-me limitado financeiramente), acabo por não ir assistir à estreia em solo nacional do quarteto de Las Vegas hoje, no Estádio do Restelo, integrados na 15.ª edição do festival Super Bock Super Rock como cabeças-de-cartaz.
Detentora de um portentoso primeiro álbum e outros dois distintamente aprazíveis, a trupe de Brandon Flowers emergiu da cena revivalista pós-punk/new wave efervescente de 2004, contemporanêos de Franz Ferdinand, The Strokes, Kaiser Chiefs, Bloc Party, Scissor Sisters ou The Sounds. Levei algum tempo a desprezá-los até que despertei para o seu cerne festivo e terminei neste vício saudável. Com efeito, um misto de frustração, tristeza e expectativa consome-me as horas enquanto aguardo alguma reportagem coberta por profisisonais no terreno.
Yes, Brandon, after all, you wasn't mistaken: I will quit this day and age.

Hoje há imagem

Erwann: «Être un corps je suis d'accord, t'offrir mes bras pourquois pas?»
De Les Chansons d'Amour, Christophe Honoré, 2007

Hoje há crítica

As confissões de um solteirão abnegado

Este é o quarto registo de originais de Patrick Wolf e o mesmo afigura não só um dos momentos-chave de uma das carreiras com menos tiros ao lado - já passível de alguma influência - desta década quase a findar, para alguém com a tenra idade de 25 anos, como é aprimorado com o inédito controlo das rédeas do seu material e com retorno ao livre circuito da música independente ao ser lançado com o selo da Bloody Chamber Music.

A julgar pelo título e pelo aperitivo do sinistro "Vulture" (cujos resquícios de uma "carne morta" são indissociáveis da imagem de um Steve Strange), ficamos com a falsa, ainda que entusiasmante, ideia de que The Bachelor não é mais do que um inventário monotóno de confissões de um solteiro abnegado adereçado por um arsenal de artifícios de um digital hardcore. Porém, tal preconceito desmistifica-se com o requinte e a sensibilidade rara a um nível lírico (tome-se "Blackdown" e "The Sun Is Often Out" como paradigmas) e com a magistralidade de arranjos resultantes de um já habitual cruzamento entre os flancos popular e erudito da música contemporânea, como só Wolf parece saber desafiar (ouvir o teor político de "Hard Times" e de "Battle" para o efeito). Deste modo, o preconceito passou a ser ressarcido.

Pertencente a uma duologia, da qual um segundo tomo irá ser lançado no ano que vem, este The Bachelor pode ser assumido, em jeito de retrospectiva, como uma convergência dos elementos apregoados no âmago dos seus antecessores: vai buscar os uivos electrónicos de Lycanthropy; a folk de influência céltica de Wind in the Wires e um ligeiro travo pop de The Magic Position.

Numa análise análoga, com este recente longa-duração pode-se delinear o caminho biográfico trilhado por Patrick Wolf: no primeiro álbum, com 19 anos, está entre o ensaio e o erro, perdido, longe de casa e à procura de um sentido à sua existência ao passo que no segundo vai desbravando terreno, tentando encontrar o querido lar ao mesmo tempo que vai vivendo fábulas e parábolas; chegado ao terceiro, algo familiar está cada vez mais perto, mas incertezas corroem-lhe a alma enquanto que aqui chega finalmente em casa e despede-se de uma timidez castradora! Se o adjectivo épico for permitido, então que lhe seja rotulado merecidamente.

Hoje há desabafo

Os instrutores de condução produzidos em série ou a má sorte de ter uma excepção

Desinteressado pelo universo da condução automóvel e toda a espécie de culto social pela mêcanica de veículos motorizados generalizado, manifestei uma vontade de conduzir pouco entusiasmada. Até aqui, dados obstrutivos, mas não impeditivos para uma tentativa.
Todavia, o inesperado aconteceu: um septuagenário com tendências memocráticas (como eu desprezo este estilo de vida!) apresenta-se como meu instrutor. Mesmo advertido para com as consequências impacientes de quem se relacione com a singularidade "à sua maneira" do senhor, decidi ver para crer.
Julguei ter estofo - e apesar de adoptar um atitude submissa deixando que ele leve a sua avante (como, aliás, faço sempre perante um caso bicudo de tacanhez) -, mas um leque de características suas conduzem a uma carga psicológica de terapia de evasão mal feita. A saber:
  • A sua inaptidão de percepção e compreensão de que cada aluno é um caso de aprendizagem;
  • A sua inferida ideia de que tudo é dado e óbvio na óptica do instruendo;
  • A incoerência de sugerir a iniciativa ao condutor mas, minutos depois de ele a ter feito, solta um berro absurdamente brejeiro acerca da incorrecção cometida;
  • O desiquilibrio entre a preocupação anormal (acrescento mesquinha?) para com o estado do automóvel - propriedade do instrutor, apenas utilizado como recurso pela escola - e a preocupação para com o estado de aprendizagem/concentração do aluno, um nível de segurança na estrada.

Exagero? Talvez. Só espero é que seja, efectivamente, uma excepção para que novos estereótipos de instrutores de condução não se criem.

Hoje há indignação

Voltamos a 2006 ou aos anos 80?
Ontem foi descaradamente assumido por um porta-voz do Ministério da Sáude que o Instituto Português do Sangue (IPS) exclui os homens que tenham ou mantenham relações homossexuais como dadores, confirmado horas mais tarde pelo próprio IPS. Os motivos levantados, «comprovados cientificamente», andam em torno da maior probabilidade de comportamentos de risco neste grupo comprometendo, através da transfusão de sangue, a qualidade do mesmo. Mesmo assim, Gabirel Olim, deixa salliente de que não se trata de um a forma de discriminação, sustentando que as mulheres que tenham ou mantenham relações sexuais com outras mulheres podem fazê-lo.
Caros Gabirel Olim e Ana Jorge, excluir e/ou fazer uma selecção de um grupo de pessoas é discriminar - favor de consultar o dicionário para dúvidas detalhadas. Só o argumento que as lésbicas têm esse direito entra em choque com as leis da coerência, isto é, ridicularizaram ainda mais a vossa tese.
Dentro dos limites do meu conhecimento, ainda se fazem testes clínicos prévios antes da doação ou será este um novo mecanismo para saltar tal procedimento decisivo como forma de contenção de despesa pública? Ou também partem do "príncipio" que dadores que declarem ter-se envolvido sexualmente com o sexo oposto não têm comportamentos de risco? Ou pior: que se auto-proclamem hetereossexuais e mantenham as relações supracitadas? Será o sangue dos homossexuais masculinos espanhóis ou suíços diferente do dos portugueses? Mas agora vamos imitar as práticas desprovidas de sentido semelhantes às dos E.U.A., Reino Unido ou Canadá em função de quem dá do que é dado? Felizmente, organismos iluminados e verdadeiramente conhecedores de factos científicos como a Coordenação para a Infecção do Vírus VIH/SIDA e a Comissão Europeia já se fizeram ouvir. Igual louvar vai para, entre outras. a reacção da ILGA Portugal, que zela pelos direitos LGBTQ no nosso país, e do SOS Racismo.
Voltamos a 2006, ou pior, segundos os argumentos de Olim, aos anos 80, é isso? Isto tudo cheira-me a muita crendice e pouca ciência, meus senhores, e, logo, para além de não ser este o caminho a fazer para zelar pelo bem-estar dos receptores, prefaz, no geral, um atentado à dignidade humana e à nossa Constituição de traços democráticos e um atirar de achas para a fogueira do estigma passadista do "homossexualseropositivismo", bem como uma humilhação para com quem é diferente e um insulto à inteligência de todos, de qualquer orientação sexual, no particular. Como homossexual (saudável e, curiosamente, sem comportamentos de risco), exijo um pedido de desculpas!

Hoje há apresentação

No Hoje Há Elogio ao Menoscabo cabe uma pluralidade de ingredientes: desde o rasgo espontâneo da projecção escrita de uma ou outra frustração à ambígua relação de um vituperar/louvar de acontecimentos de qualquer foro que estimule a minha capacidade crítica. Para acompanhar, há tempo e espaço para umas perífrases compulsivas como tratamento de ideias, polvilhado como uma tentativa de humor subtil q.b. como toque final.
Conclusão: este blogue ganha paralelo com as características do estilo artístico Rococó.