sábado, 29 de agosto de 2009

Hoje há crítica

A glória do sacana do Tarantino

Quem é que, depois de uma onda avassaladora de promoção - onde uma pluralidade de versões de cartazes se destaca - e de incontáveis boas impressões a despeito, se digna a não ficar expectante relativamente a um filme? Foi o que aconteceu comigo e o novo Inglorious Basterds (Sacanas sem Lei). Para cúmulo da ansiedade, surgiu como contributo a conotação de um exercício cinematográfico inspirado num spaghetti western subjugado à iconografia da 2.ª Guerra Mundial... dirigido por Quentin Tarantino! Saliente-se que a curta, mas indubitavelmente já icónica, filmografia do realizador americano não é obstante ao seu lugar reservado de um dos mais prestigiados e este seu sexto projecto veio confirmar o seu estatuto de obra-prima.

Inglorious Basterds vive de um trabalho de narrativa e da tensão soberba de que dele origina. Fazem parte dela, diálogos carimbados pelo humor corrosivo (e muitas das vezes macabro) que colidem coerentemente com uma misce-en-scène certeira - a sequência em que o clássico "Cat People (Putting Out Fire)" do senhor Bowie serve de banda-sonora aos preparativos do plano vingativo de queimar bobinas de fita de nitrato camuflado numa estreia de um filme da Propaganda Nazi assenta que nem uma luva - e assim nasce um leque de cenas à espera do seu epíteto de "clássicas" num futuro próximo. Tudo isto consumado, parto de um atrevimento ressaltar a linearidade do guião com tanta tendência climática despida, pouco habitual no estilo de Tarantino, mas nem por sombras menor.

A fechar em beleza, cabem uns quantos elogios a um elenco esmerado: Daniel Brühl procurou uma ambivalência de um apaixonado obsessivo ao passo que Mélanie Laurent revela a verdadeira crueza de uma vingança sem precedentes. Todavia, e ainda que Brad Pitt continue no comando do protagonismo, Christoph Waltz rouba toda a glória possível e imaginável com o seu desempenho rigoroso de uma personagem intrinsecamente fascinante e, por isso, algo desafiante na sua interpretação - o Oficial das SS, Coronel Hans Landa, ou como os sacanas se orgulham de o apelidar, o "Caçador de Judeus".
Conforme introduzido e apreciado na derradeira fala de Aldo Raine: "I think this might be my masterpiece" quando este deixa a sua marca eternizante na testa de mais um nazi, este Inglorious Basterds consegue, de facto e aos meus humildes olhos de leigo, alcançar essa proeza - a de obra-prima. Um marco que não revolucionará o curso do cinema contemporâneo como fez Pulp Fiction em 1994 mas que fomenta muito aspirante a realizador e cimenta Tarantino no seu pedestal, por mais divididos que tanto público, crítica e envolventes directos do cinema se achem.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Hoje há crítica

Sgt. Arctic Monkeys Club Band

Quando, em 2005, os Arctic Monkeys deram-se a conhecer ao mundo, um novo entusiasmo despoletou no coração do rock independente. Traziam na sua fórmula mágica trunfos como canções despretensiosas que obrigaram os críticos a rotulá-las de "rock dançável", muito na linha de seguimento dos congéneres Franz Ferdinand. Mas os rapazes de Sheffield trascenderam essa etiqueta ao evidenciar uma viagem pela marca das suas posturas e conceito mais abrangível. Com Humbg, o terceiro álbum, o leme altera a sua rota subitamente, como se tivesse visto o Adamastor.

A imagem apregoada pelo quarteto indiciava uma mudança influenciada pelas sonoridades bucólicas de finais dos anos 60 até ao íncio da decáda posterior, com Jimi Hendrix, Cream e Black Sabbath a liderarem a responsabilidade. O primeiro single, "Crying Lightning", levantou aponta do véu e confirmou: eles mudaram. Mais se sente depois de umas certas horas de audição das 10 faixas que compõem o longa-duração, pois "Dangerous Animals" e "The Jeweller's Hands" são atrozes para quem ainda tinha uma réstia de negação. Na sua grande maioria, são temas sisudos e cerrados, mas, ainda assim, indiscutivelmente acessíveis. Por exemplo, "My Propeller" dá-me razão depois de uma digestão de quatro ou cinco repetições.

Com o carimbo da habitual Domino Records, o álbum, numa perspectiva temática, persiste o lado cronista do colectivo, com grandes injecções de situações comuns e diárias adornadas com um delicioso sotaque. Bendito Alex Truner! O que é, contraditoriamente, novidade é fusão de uns versos algo inócuos de Arctic Monkeys com a visão amadurecida de Last Shadow Puppets, ou lado paralelo do vocalista com o seu colega Miles Kane, dos recém separados The Rascals.

Pensou-se em disparate, mas o veredicto é puro e simples: "primeiro estranha-se e depois entranha-se". Os Arctic Monkeys de "Fake Tales of San Francisco" ou de "Teddy Picker" trocaram a sua pele e aqueles que entravam na birra de "quero mais do mesmo" saíram insatisfeitos. Quanto a mim, não me coloco nesse saco e tenho ainda a insolência de tecer uma analogia com o rumo que os Beatles levaram depois de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, quando anteriormente eram conhecidos como os miúdos de Liverpool que punham as raparigas em histeria com as suas músicas de amor. Em 2009, um novo interesse crítico vai ser suscitado no coração do rock independente e, finalmente, afirmar-se-á sem complexos que a banda tem e sabe gerir uma carreira.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Hoje há desabafo

Ah! É outra coisa...

Pela quarta vez consecutiva (nem quero crer que assim seja!), aproveitei três dias na Ilha de Tavira e gozei de momentos terapêuticos na companhia de muito boa gente. Aliás, veio a confirmar-se depois, na despedida, com o sentimento estreante de uma vontade em não arredar pé a consumir-me...
Para ajudar a justificar encontra-se, na linha da frente, o ambiente de comuna que veio ajudar-me a perceber que não é preciso abdicarmos da nossa liberdade individual, nem viver sob um sistema rígido de regras para nos organizarmos em união. Depois, vem o lazer que provocou alturas de inesgotável diversão: desde o meu atrofiar das mentes mais concentradas e profissionais de um jogo de cartas às cantorias rídiculas e excessos imperturbáveis, uma miríade de acontecimentos simples fez parte do cardápio de emoções alegres.
No momento em ponho os pés na minha casa, uma oposição de ambientes petrifica-me, qual choque térmico de um corpo escaldante a entrar em águas geladas.
Espero ter me feito entender quanto ao adjectivo "terapêuticos".

Hoje há indignação

Ou sim, ou sopas

No passado dia 25, o Presidente Cavaco Silva procedeu ao seu direito de veto em relação à nova lei das uniões de facto em Portugal. Esta consagraria direitos ampliados como a protecção da casa de morada de familia e o direito à pensão de sobrevivência a todos aqueles que optaram à alternativa do casamento, seja ele civil ou católico.

Dispenso discutir se o Presidente agiu de forma ideológica (a polémica da lei do divórcio, lembra-se? Pois.) e facciosa, ao fazer um favor à sua força partidária e à Igreja Católica Apostólica Romana (e aqui, discutir-se-ia o facto de um Presidente da República ser apartidário, visto promulgar leis transversais a todos os portugueses), ou de forma baseada, efectivamente, no seu argumento de inoportunidade em relação ao calendário político. Dispenso também entrar em acordo ou em desacordo relativamente ao seu procedimento, já que os meus conhecimentos de legislaturas do Código Civil são limitados, mas, se, ainda assim, tivesse uma palavra a dizer, diria que, de facto, os dois contratos devem ter direitos distintos, uma vez que parte de uma opção dos seus intervenientes entre seguir um ou o outro. Mas, lá está, isto é baseado no pouco que sei.

Obviamente puxando a brasa à minha sardinha, o que me faz verdadeiramente confusão é a incoerência da posição contra a lei da igualdade do acesso pleno ao casamento civil a todos os cidadãos, acrescentando para tal o único segmento discriminado nesse aspecto - os cidadãos do mesmo sexo. Falo daqueles que, aquando da discussão acesa do progama Prós e Contras, da RTP, sugeriam um novo reforço de direitos jurídicos das uniões de facto (sabem, aqueles que impulsionam os homossexuais a lutar por tamanho direito - não, aqui não há rebeldes sem causa para haver reacções como «mas queixam-se de quê?» ou «o qu'é que querem agora?!»!) só para que os mesmos não acedam o casamento -ao fim ao cabo, a tal história absurda do "dêem-lhe outro nome». Agora, aplaudem o veto político porque, caso contrário, a nova lei iria colocar a união de facto e o casamento civil em pé de igualdade. Em que é que ficamos, afinal?

Hoje há...

...programa e horários do MOTELx

A terceira edição do Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, MOTELx, começa já no próximo dia 2 de Setembro, Quarta-feira, e estende-se até ao dia 6, Sábado. À semelhança das duas edições passadas, o certame tem lugar no mítico Cinema São Jorge, em Lisboa.

Para já, ficam já disponíveis o programa e os horários. Na qualidade de verdadeiro ignorante do cinema de terror independente - mas, ainda assim, interessado -, destaco as óbvias longa-metragens de abertura, Rogue, do australiano Greg McLean, e de encerramento, Jack Brooks: Monster Slayer, do canadiano John Knautz.

Como sempre, espera-se a habitual vertente de comédia mórbida que vem distinguido o festival desde a sua primeira edição, comprovada em filmes como Black Sheep e Teeth. Por essa razão, uma certa perversidade suscitou-me ao ler o título intrigante da curta O Leproso.

Hoje há reflexão

Conta-me Como Foi do Século XXI

Sara e Marco, ambos de 18 anos, casam à boa maneira tradicional. Ela porque não tem personalidde suficiente para seguir um rumo autonomamente e acha que um bom homem é mais que capaz para lhe oferecer uma vida; ele porque acha que já aprendeu tudo aquilo que a escola tinha para ensinar e, sendo assim, vai trabalhar para a oficina mais próxima e precisa urgentemente de construir uma família que lhe dê suporte à sua própria vida. Em bom português, porque a capacidade crítica escasseia-lhes.

Alguns anos mais tarde: Sara é vítima de violência doméstica por parte de Marco e insiste em ocultar a humilhação gradual ao abrigo dos conselhos da mãe: "Aguenta, que eu também aguentei". Marco trai Sara porque afinal inteirou-se que afinal não consegue desafogar-se monogamicamente e esbanja balúrdios na sua espiral de (des)venturas. A acrescentar à festa, os filhos gerados vêm, dentro das possibilidades e circunstãncias, a sua educação limitada à ideia basilar de "comida na mesa". Amigos? Tanto Sara como Marco nunca tiveram noção do seu verdadeiro conceito.

Há 40, 30, 20 ou até 10 (!) anos, concebe-se e perdoa-se.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Hoje há crítica

Diz-me com que andas e eu digo-te quem não és

A minha relação com o Cinema Francês já contou com piores dias. Aliás, ouso afirmar que, em jeito mais que irónico, tem vindo a ficar cada vez mais sólida depois do inspirador Les Chansons d'Amour, de Christophe Honoré. Mais: a sua alegada índole pretensiosa não era mais do que um preconceito cego que, como tal, não deixava evidenciar a sua essência de um cinema capaz de retratar a genuinidade das relações humanas. Com Soit Je Meurs, Soit Je Vais Mieux (traduzido para Ou Morrro, ou Fico Melhor) e os seus contornos minimalistas, o meu encantamento ressurgiu e selou a confirmação de um flanco cinematográfico injustamente desprezado.

Conduzido pela experiente Laurence Ferreira Barbosa, a fita orienta, num modo livre, a sua história de um adolescente, Martial, veiculada pela dificuldade de integração na sua turma abertamente hostil e pelas suas descobertas e experiências ao lado da idiossincrasia de duas gémeas. É exposta a crueza dessa transição de mancebo imaculado para homem consciente nos momentos que Martial decide entregar-se a um papel submisso às rédeas das irmãs nas aventuras em que os três invadem propriedades alheias onde a mãe das raparigas apenas presta serviços como mulher a dias. Experiências excitantes que sucedem vertiginosamente umas às outras na cabeça de um miúdo que ainda está a trilhar os primeiros passos para um auto-discernimento.

O estilo de Barbosa em fundir acidentalmente vários géneros, como a comédia negra e o realismo puro, é gratificante e notório em alguma sequências. A título de exemplo, tem-se o detalhe percorrido da individualidade das casas e dos seus objectos, bem como a relação desconcertante entre Martial e Sabine, sua mãe. Interessante nota vai para o acesso de descontrolo da parte de Martial para com a sua mãe depois desta ter provocado um embaraço na tentativa de causar uma impressão idealista do filho a um colega de escola, surgindo, assim, como solução desesperada para a impopularidade do filho em ambiente escolar.

Dentro do lote de filmes sobre coming of age que vi até à data - e já vi uma porção considerável deles - Soit Je Meurs, Soit Je Vais Mieux apresenta razões que me obrigam a incluí-lo algures entre as posições cimeiras de uma lista dos mais inteligentes do género. Se não for por isso, por mais que não seja pela prestação entusiasmante de François Civil e o seu (des)penteado magnético.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Hoje há efeméride

40.º aniversário do festival Woodstock

Às vezes invejo não ter nascido mais cedo. Entre 15 e 18 de Agosto do nostálgico ano de 1969, Jimi Hendrix, Jefferson Airplane, Joan Baez, The Band, Greateful Dead, Sly & the Family Stone, Janis Joplin e, entre outros, The Who (senhores de um alinhamento de 25 músicas do seu álbum conceptual Tommy) partilharam o palco que proporcionou a uma das maiores hamonias sociais de cunho musical, onde os seus cerca de 500 mil participantes eram guiados pelo mesmo ideal.

Ainda hoje a ressonância de tamanho marco lendário é sentida, e para 17 de Setembro deste ano podemos testemunhar mais um exemplo com o filme Taking Woodstock, de Ang Lee. Conta com as participações de, pelo menos, dois trunfos da representação: um da velha guarda (Imelda Stauton) e outro da nova geração (Emile Hirsch).

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Hoje há indignação

O essencial é invísivel aos olhos de Portugal

Enquanto o Morakot move vales e montanhas e, por extensão, devasta lares e até vilas inteiras num foco não muito além do sudeste asiático, Portugal invoca a triste lamúria de uns, embora acima de média, 40º C de temperatura máxima como principal factor do cariz insuportável de mais um Verão;
Enquanto uma série de conflitos civis assola o sul do Sudão (de dia para dia, à luz de episódios de assinalável progresso, considero a inclusão de tão virtuosa nação na minha lista de principais destinos de eleição!), Portugal não conta no seu calendário um banho de sangue à escala nacional há quase 60 anos - nem mesmo em 1974, onde os cravos tomaram esse lugar - em vez disso, prefere pôr na linha da frente preocupações como pseudo rebeldias do lado negro da Força;
Equanto novos surtos de fome e desnutrição ceifam vidas, só por si, carenciadas, no Terceiro Mundo, Portugal isola-se na sua zona de conforto à espera que a, embora pandémica, estirpe H1N1 de um vírus gripal confirme, de facto, a sua natureza sazonal.
*
Obviamente que cada país tem os seus problemas, e jamais querer dar entender uma posição antipatriótica - muito pelo contrário: patriótico é aquele que consegue ver que a sua nação, afinal, também tem defeitos. Porém, se cada alminha lusitana lesse o sermão de Saint-Exupery, talvez um novo valor fosse massificado.

Hoje há...

...trailer de Up

A mais recente co-produção Disney/Pixar chega hoje às salas de cinema nacionais depois de ter aberto as hostes do festival de Cannes, em Maio. Para já, o cão falante não merece outro epíteto senão o de "engraçado"!

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Hoje há crítica

Ruiva à prova de bala

Ele é Little Boots, ele é Frankmusik, ele é Dan Black... Ultimamente têm-se registado uma onda revivalista do que melhor se fez na esfera da pop electrónica oitentista. Ou melhor, daquilo que definiu, aos ouvidos do grande público, a década musicalmente. Ora, se desde 2007 nomes emergentes orientavam tamanha influência para outros espectros, tornando a natureza da sonoridade mais actual - entre inspiração grime e urumee (M.I.A.), funk (Sam Sparro) e electroclash (Yelle, Peaches), o leque de escolha foi sortido -, em 2009 parece haver uma fidelidade purista ao legado do synth pop. La Roux é um exemplo assaz ilustrativo e a sua estreia homónima é factor sintomático.

Elly Jackson é o rosto da dupla britânica (a outra metade, oculta, é Ben Langmaid), cuja estética e forma tiveram origem veemente na própria. Uma concepção visual irreverente que, ironicamente, já entrou em processo de banalização, mas que, ainda assim, se dá a abébia à peculiaridade capilar que deu nome à banda. A juntar-lhes a isso, tem-se uma pop orelhuda, colorida e buliçosa, incorpada num um sem-número de efeitos mirabolantes desse intrumento que deu o cognome de "pais" aos Kraftwerk - o sintetizador. As pegadas deixadas pelos Human League, Blancmange, Soft Cell e até mesmo Heaven 17 manifestam a sua continuidade em faixas tão pândegas como "In for the Kill" e "As If By Magic". Semelhante cunho acha-se na ferverosa mensagem de "I'm Not Your Toy" e ainda na contagiante "Bulletproof", acabadinha de sair do universo dos jogos de Arcade.
Recentemente nomeado para o prestigiado Mercury Prize deste ano, La Roux, que tem a chancela da Polydor, é um longa-duração que sabe a Verão e, como tal, prontissimo para celebrá-lo nas pistas de dança, em alternativa estupenda aos êxitos inclassificáveis daqueles que julgam que é só pegar na amiga de Beyoncé Knowles e vamos lá ensaiar batidas em laboratório. Não esquecer: é para dançar como forma de expressão corporal, não causar impressão estrebuchando...

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Hoje há desabafo

Meu querido mês de Agosto
O sol esturrica as moleirinhas das almas lá fora.
O dinheiro esgota-se e não tomo providências a respeito.
Os festivais de Verão estão no seu pico e ninguém se digna a transmitir em directo e na íntegra. E outros eventos culturais ou tornam-se repulsivos porque não tenho companhia ou porque a rentrée de Setembro dá ares de ser mais extasiante.

Aqueles com quem eu podia gozar de uma companhia prazerosa dividem o seu paradeiro entre Alvor e Berlim, e Lisboa, essa, sofreu um êxodo urbano de meter dó. Aqueles que em nada me estimulam o interesse, não se cansam de enviar convites para ocasiões de semelhante estímulo de interesse.
Levo uma rotina pericletante entre um código em banho-maria e um concurso local para a faculdade cada vez mais exigente. Nos entretantos, ocupo-me com momentos burocráticos relacionados com a Octávia. Isto se não me achar a vislumbrar objectos irrisórios que me circundam, qual corpo acabado de ser hipnotizado.
Às vezes interrogo-me: não seria consideravelmente mais profícuo formar ou juntar-me a uma banda pimba e percorrer lés a lés os Fornos de Algodre deste rectãngulo? Ah! Lembrei-me: nem isso sou capaz de fazer.

Hoje há imagem

sábado, 8 de agosto de 2009

Hoje há...

...Fainanauei!

Ou, em alternativa, uma canção idiota e sem sentido... mas que logrou a proeza de interromper o tráfego do Chiado!

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Hoje há reflexão

O quê? Um homem a abraçar outro?!
Mais uma vez, a sociedade é quem manda nos meus comportamentos. Ainda que absorto na minha maior ingenuidade de que dois homens se podem relacionar a um nível íntimo sem se apaixonar e/ou desafogar-se desenfreadamente, ganhei a noção que de havia, de facto, nome e ênfase para este novo (?) "fenómeno sociológico" depois do caso Bronnie do reality show americano Make Me a Supermodel. Chamam-lhe bromance.

Hoje, em virtude da entrevista de Jason Segel feita por Jimmy Fallon a propósito do seu mais recente filme, I Love You, Man (cuja permissa anda à volta de um homem que apenas dispõe de mulheres no seu círculo de amigos e que, por isso, parte à procura intensiva de um amigo que lhe sirva como padrinho de casamento), o conceito veio à baila e concluí que um destaque desmesurado e, acrescentaria, urgente é significativo e, por essa razão, alarmante! Quer isto dizer que, até à data do aparecimento do termo, a amizade entre dois homens esgostava-se à partilha de actividades em comum em detrimento de uma partilha emocional?!

A ideia de bromance não é mais do que uma concepção prevísivel e sordidamente frívola vinda do país que vem; sem dúvidas de gente que é incapaz de conceber uma visão da vida sem a bela da etiqueta. Provando, assim, como a sociedade ocidental entra em colisão com aquilo que cospe levianamente e o modelo social patriarcal e sexista obsoleto que insiste em cursar. Isto significa que quatro décadas após as revoluções sexuais que mais saudade deixam surtiram o seu efeito somente a curto prazo.

Tudo isto leva-me a crer que os homens devem reprimir qualquer espécie de carinho, ternura, afecto ou outro sentimento senão aquele coadunado ao seu papel de género, isto é, "que não é de homem" como diria a dupla de panisgas. Ficando, assim, o privilégio confinado às senhoritas. Por isso é que ninguém se espanta quando duas mulheres dançam uma com a outra ou vão à casa-de-banho pôr o escárnio e mal-dizer em dia e já se escandaliza na eventualidade de uma outra ameaçar o marido, pai, irmão, vizinho ou desconhecido de um valente enxerto. Excluíndo a óbvia dica de sapatona, o "lésbica!" só vem depois, com o beijo na boca.

Hoje há obituário

John Hughes (1950-2009)

Lembro-me tão bem de ter realizado um esquisso de uma crítica ao filme The Breakfast Club para o meu portofólio de Inglês, há sensivelmente três anos. Nela, pus na linha da frente que o preconceito começa bem cedo, tendo como palco principal a escola. Comparava as várias tribos urbanas de adolescentes que analisava na minha escola com as cinco personagens do filme. Rematei com a visão optimista de que todos nós somos mais profundos do que os estereótipos que nos etiquetam, parafraseando, até, a tagline do filme: "Five strangers with nothing in common, except each other".
Só por isto (visto não estar familarizado com o resto da sua curta filmografia), agradeço a John Hughes, realizador de The Breakfast Club.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Hoje há crítica

É racional ser-se supersticioso

Há filmes que nos escravizam a mente de modo inquietante. No caso particular de Coisa Ruim, graças ao seu tratamento cuidado dos momentos de uma família comum num ambiente que lhes é estranho, tal fenómeno é alcançado através de uma injecção insolente de circunspeção quando já tinhamos como garantido tudo aquilo que de metafísico nos rodeia. A sua dupla de realização, Tiago Guedes e Frederico Serra, decide produzir o efeito dramático do argumento de José Rodrigues dos Santos (sim, o pivô de telejornal) apoiando-se num método de suspense do maior primor.

Aliada ao suspense, um dos grandes intersses da fita prende-se com a sua componente temática que, se me permitem, vou dissecá-la nas seguintes vertentes: primeiro há a acusação veemente de que a religião - organizada ou não - anda de mãos dadas com a superstição, deixando-a filtrar-se na sua esfera mais beata. Deste modo, à Igreja é conferida uma credibilização vagueante pelas ruas da amargura; Depois, existe o palco no qual tamanhos enredos são assistidos, desta feita, no interior mais inóspito e profundo de Portugal, onde a modernidade é sacodida sem remorsos e o folclore é abraçado como resposta a tudo; Por fim, em contrapartida, em virtude de eventos que aparentam esconder qualquer explicação, a barreira que dissociava a lógica e o intelecto da crendice ou do paranormal vai dando de si, chegando até a chamar a atenção para àquilo que as chamadas ciências exactas parecem não encontrar razão.

A todo este desmontar de acção riquissimo - no qual nem a influência a O Exorcista, assente no paralelismo do padre velho e obtuso e o padre novo e receptivo, foi dispensada -, coube não só a um elenco igualmente rico dar o corpo ao manifesto (desde um inflexível Xavier de António Luz até uma hesitante Helena de Manuela Couto - sem jamais olvidar o trabalho premiado de José Afonso Pimentel, claro está!) como também o recurso à naturalidade e espontaneidade técnica na arte de assutar, primando maquilhagem e guarda-roupa realistas à facilidade dos artificios sonoros e do gore desnecessário. Classe.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Hoje há indignação

Já não existem crimes de ódio

Sempre considerei Tel Aviv como a Nova Iorque de Israel. Isto é, metrópole desfasada da nação a que pertence sob a égide de valores essencialmente liberais e cosmopolitas, devendo um pouco à conotação generalizada de patriotismo.

Como tal, transcende-me plenamente como ainda há gente - e passando a redundância - que se incomoda de incomodar os outros motivada por fundamentalismos homofóbicos. É só.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Hoje há...

...trailer de Spread

As sinopses que circulam pelo mundo cibernáutico podem induzir a longa-metragem de David Mackenzie com uma nova variante do género de comédia romântica: a sexual. No entanto, eu deposito as minhas dúvidas até 15 de Outubro, a data da estreia portuguesa.

Quer dizer, estamos a lidar com um Ashton Kutcher de sotaque irrestivelmente grave e guarda-roupa tremedamente urbano...

Hoje há crítica

Pequeno diário colegial

É ponto assente que eclodiram no ano passado, mas acabei por ignóra-los plenamente (à excepção de burburinho acerca do jogo fonético que adorna o seu nome). Quiçá muito por causa do pedestal ganho pelos Vampire Weekend com a sua jóia homónima de 2008. No entanto, há espaço para as duas bandas até porque, os Ra Ra Riot, ainda que perfilando as mesmas orientações, conseguem ser meritoriamente estimulantes.
Quando afirmo haver semelhanças descaradas entre Ra Ra Riot e Vampire Weekend, faço-o por ser um facto inevitável. Senão vejamos: ambos acusam origens de estudantes de carinhas larocas, de visual "limpinho", vindos das mais prestigiadas universidades de Nova Iorque (vá lá, a Universidade de Syracuse não é membro da Ivy League), ganharam a primeira atenção no seus campuses e circuitos relacionados e apresentam uma reinvenção prodigiosa no pop/rock mais independente. No entanto, há um limiar de distinção: se no caso do quarteto de Columbia a híbrida influência africana e clássica incitava o motor de interesse, nos Ra Ra Riot são os violino e o violencelo (entregues nas mãos nos únicos elementos femininos do colectivo) que cunham a diferença no seu álbum de estreia, The Rhumb Line.
Para além da componente instrumental brilhantemente patente, a acresentar à tal singularidade estão as histórias de uma puberdade tardia que, preconceituosamente, podia ser censurada, mas quando se revela ingénua e igualmente adorável, o caso muda de figura. A falta de auto-confiança e inexperiência individuais colidem com mil e um desvarios amorosos em "Can You Tell", "Too Too Fast" e em "Oh, La". Já o esplêndido momento de "Dying Is Fine" debruça-se especialmente sobre um reflexão existencial crucial. Estão, então, reunidas as condições para uma audição aprazível.
Lançado pela mesma editora de Death Cab for Cutie e They Might Be Giants, a Barsuk Records, The Rumby Line não é um álbum que se escute de fio a pavio. No entanto, são passagens como as destacadas que fazem dele um aperitivo imenso para àquilo que há-de vir deste promissor quinteto nova-iorquino.

Hoje há desbafo

Uma questão de laços, não de consaguinidade

Quero mais. Quero mais que mesquinhices, egocentrismos e censura por seguir naturalmente um caminho desviante, onde cabem uma pluridade de valores abertos onde e a generalização fica à porta.

Quero mais que brejeirices, falsos pudores, e complexos de inferioridade sob a forma ofensiva justificada pela ideia populista de que "ele não mais que eu".

Quero mais que uma vitimização a roçar o pueril e uma felicidade alcançada pelos prazeres terrenos ou obtida por um consumismo de ostentação.

Apesar de não ser um caso de autocracia familiar, é de um ambiente castrador que me obriga à implosão - o que não faz com que a situação deixe de ser igualmente insuportável. Dessa implosão, inúmeros mecanismos fazem parte: desde a "bolha" que ajuda no processo de abstracção ao pouco recíproco mergulho nos pensamentos do outro e tentar perceber o seu lado. Porém, não sei quanto tempo resta para atingir o meu ponto de saturação...
Ainda que contornável, permitam-me frisar que sinto-me ridicularizado, desprestigiado. Visto como um louco, um dependente de anti-depressivos e até um enviado de um planeta vizinho. Por isto tudo e não só, quero mais.

Hoje há reflexão

Religiosidade beata - Parte I

Este fim-de-semana estive em Peniche, aldeia pescatória de longas praias propícias à prática de surf, cuja única atracção turística talvez seja o forte onde uma célebre fuga de presos políticos (entre os quais, Mário Soares) ocorreu ainda no regime do Estado Novo. No entanto, feiras de cariz duvidoso, onde a mão-de-obra infantil explícita mas abafada prolifera (claro que a presença de autoridades policiais é só para dar um ar de graça, caso contrário António José Correia não podia contar com mais uns lucros à sua autarquia) e o mau gosto tresanda - desde as personalizadas pinturas manuais dos carrosseis até às peças de vestuário fluo-prateadas vendidas a preço de pão -, é que fazem as delícias tanto de estrangeiros como de locais. Mas onde quero chegar é até ao motivo (?) da mesma: a celebração da devoção à santa padroeira, Nossa Senhora da Boa Viagem, qual Panateneias do Mundo contemporâneo.
Nela incluem-se uma procissão que muito antes de esta ainda ir no adro, já os seus crentes ou meros fascinados (tudo depende do seu grau de convicção, claro está) fervilham de excitação, tentando encontrar uma pontualidade, que nunca descuraram em relação ao próprio emprego. quanto ao seu inicio. Depois, vêm a assistência ajustada ao seu silêncio máximo em respeito a tamanho símbolo de terracota por desfilar as ruas profanas da cidade, e a retribuição feita em dinheiro com a certeza de que "Nossa Senhora nos vai ajudar". No fim, houve tempo ainda para um arrebanhar de uns ramos de alfazema como nova alternativa ao espanta-demónios. Obviamente, eu fui a primeira cobaia.
Quanto a mim, ainda recebi uns olhares de reprovação subtis que, ironicamente, foram contrastados com a minha hemorragia intelectual e melífluo controlo da parte crítica em respeito pelos credos que me escapam, por mais que tais não tenham sido entranhados por convicção própria. Ainda assim, pergunto: será que o bilhete do agora museu do forte custaria mais de €3?